sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Cortes e Recortes - ULTIMATE VERSION

Esse texto já teve um prólogo e uma introdução (para os desinformados sobre o que raios é a corte).

Acredito que essa seja minha terceira versão deste texto. Ele já foi uma carta aberta, um manifesto, um desabafo. Só não foi um poema porque não sou tão bom assim. Pois bem, argumentemos então. Só quero lembrar que vou transitar entre um panorama geral e o caso específico da IBMA. Ah, Aline, li os seus textos sobre corte, e me ajudaram bastante!




Qual é meu problema com a corte? É o fato de ela ser uma regra. Não só uma regra na IBMA, mas ela em si é regra, norma, mandamento. Para mim, por mais que bem intencionada, ela desrespeita a individualidade do ser humano que crê em Deus e conta com Ele para regular a sua ética e moral.

Na IBMA pratica-se o "beijo só no altar". Tenho ENORMES problemas com isso (e não pensem que é porque eu tenha um desejo oculto, luxúria indomada ardendo no meu espírito). Quero dizer, não há verdadeiro fundamento bíblico para a proibição do beijo na boca. Todas as argumentações que ouço trabalham com apriorismos extra-bíblicos (como o fato que o beijo na boca é sexo oral - RIDÍCULO! Por definição, o sexo oral é a estimulação da zona erógena masculina ou feminina. E não tem essa de "meu corpo todo é erógeno". Zona erógena é aonde está seus órgãos genitais. Acabou. Você pode sentir prazer em ser tocada(o) em outras partes do corpo, mas zona erógena só tem uma) ou puro senso-comum - geralmente negando ao rapaz/moça qualquer controle sobre suas pulsões sexuais. Por favor, se fôssemos tão descontrolados assim, ninguém chegaria aos 12 anos virgem.

Vamos parar um pouco nessa de não conseguir se controlar. Alguém acha realmente que proibir o casal de se beijar vai bastar pra mitigar o desejo sexual? Pensei que DEUS tivesse dado isso pro homem e pra mulher. Como outros dons Dele, precisa ser administrado, mas não suprimido. Isso porque existem cortes mais radicais, onde até pegar na mão é proibido (ou fortemente desestimulado). Da maneira que vejo, esquece-se o papel do Espírito Santo como agente vivo e eficaz que opera nossa salvação. Sem Ele pra nos santificar, não vale de nada qualquer coisa que façamos... imagina a corte!

Embora eu compreenda os pressupostos e as boas intenções dos propagadores da corte, eu realmente não consigo engolir isso tudo. Entendo que a relativização e subjetivação da ética e moral aparece de maneira assustadora para olhos tradicionais (resisto em dizer "modernos", em referência às coisas que escrevo aqui; a dicotomia moderno/pós-moderno que celebro e ataco na mesma frase) e esse tipo de resposta bem "volta às origens" - lembro de Fredric Jameson e suas palavras sobre o presente perpétuo do sujeito contemporâneo - é totalmente compreensível, embora eu a reprove.

Calma. Respire e, se precisar, releia o último parágrafo (acho que eu mesmo vou fazer isso). Vamos voltar? O presente perpétuo, ou a minha leitura dele, é essa vontade de voltar aos "antigos fundamentos", à "antiga forma", baseados nessa crença estúpida que antigamente as coisas eram melhores... como se a tendência do ser humano não fosse a decadência e a podridão - apesar dos chamados avanços e progressos em várias áreas do conhecimento; tudo às expensas de exploração e destruição de si e do Outro.

A imaginação, o abraçar com todas as nossas forças a subjetividade[1], configuram-se para mim nas grandes armas contra o-que-quer-que-seja-que-estejamos-lutando-contra. Não se pode quebrar escudos de ferros com lanças de madeira e pedra. Não podemos achar que Deus se prenderá numa cultura que não é a nossa por qualquer motivo que seja.

Agora, se com "corte", se quer dizer "relacionamento amoroso com ausência de intercurso sexual e carícias pré-coito (as chamadas preliminares) entre dois cristãos compromissados entre si e sua comunidade de fé com vistas a casarem-se"; bem, não é isso que "namoro cristão", uma expressão bem mais conhecida e antiga, que dizer disso? Por que mudar as palavras em primeiro lugar? Porque acharam que elas não traduziam a força de um compromisso diante da maré pós-moderna? Acharam que mudando o nome iria-se magicamente mudar o pensamento de todos e torná-los subitamente mais parecidos com o modelo de hombridade/feminilidade que se queria[2]? Pois pra mim a falácia desse esforço fica evidente.

Meu ponto: A imposição da corte como "A" alternativa a toda a carnalidade e todo mal é mentirosa. Não é a corte. É o Espírito. Sim, agora vocês concordam comigo. Mas me digam se, lá no fundo, não existe uma confiança no sistema religioso que construiu a noção da corte? Vocês também se sentem atraídos pelo medievalismo, pelo aparente cavalherismo disso tudo? Não se enganem, TUDO que a corte alega inaugurar já existia. Ela é pastiche, decaupagé, papéis-machê colados para formar uma estátua gigantesca. Ela própria é sintoma desses tempos sem Pai e sem Mãe.
A solução não é o resgate de um pretenso modelo cultural e historicamente condicionado, nem o falar com outra linguagem as mesmas palavras, nem normatizar a conduta dos cristãos sob o jugo da nova "Lei Mosaica". A solução é tornar cada um responsável por sua própria vida perante o Eterno e pararmos de jogar a culpa por nossos erros no diabo, no sistema ou no Outro.

Não sou eu que vou dizer a quem quer que me leia o que fazer. Sou um ser humano. Posso até recorrer à ética, à tal "Lei natural" do século XVII-XIX, aos imperativos categóricos kantianos. Mas não posso condicionar ninguém à Palavra. Ao que Ela significa para o que a ouve. Todo o foco é o Indivíduo. É Deus, o Absoluto, o Absurdo (porque não-racionalizável), em relação dialética com o Indivíduo[3]. Não sou legitimado como autoridade eclesiástica, não possuo o corpus doutrinário apropriado, não sou velho o suficiente pra apelar para a sabedoria das cãs, nem sou novo o suficiente para ser desculpado de possíveis heresias. Em resumo, tô ferrado!

Agora, eu sei que vai chover pedra após este texto, e quero mais jogar beisebol com elas!

Por favor, critiquem, analisem, concordem, discordem...

E eu sei, tá confuso pra caramba. Desculpem por isso.

_______________
[1] Subjetivo, aqui, é o oposto ao objetivo, isto é, relativo ao sujeito, à pessoa e não no sentido comum e incorreto de "relativo" (as oposições são relativo/absoluto e subjetivo/objetivo e não, elas não são a mesma coisa).
[2]Que é um modelo medievalista e conservador dos papéis de gênero consagrados no Ocidente, homem dominador e mulher dominada.
[3] Vide Kierkegaard em Temor e Tremor para a noção de Absurdo, Rudolph Otto sobre a irracionalidade do Sagrado (que ele chamava de caráter numinoso) e Karl Barth em Church Dogmatics sobre a dialética entre Deus e o homem. Ou você pode buscar na Wikipedia, eles tem boas introduções sobre esses autores. Se você colocar em inglês, acho até melhor, mesmo que os artigos em português não sejam tão maus assim.

5 comentários:

Gil Costa disse...

Bem, não vou comentar sobre Corte porque concordo com tudo que tu escreveste.

Agora uma coisa é certa: estás ficando mais engraçado, tá se inspirando no Diogo Mainardi é?! ;)

Gil Costa disse...

"e não pensem que é porque eu tenha um desejo oculto, luxúria indomada ardendo no meu espírito"

Essa vai pro meu perfil do orkut!

Helder disse...

como sempre prolixo e divergindo da ideais contrarios ao que a palavra do Grande Pregador nos fala... enfatico e engraçadão asiaosjioajsoijaj muito bom cara... esses apostatas disvirtuadores do proprio Cristianismo... ahuhauahuahhuah... boa Rob... vow passar a frequentar esse blog... abraços God Metal Bless Your Life (bem underground isso ashiaushias)^^

Beerman disse...

Não pode beijar? Um santo aperto de mão é a solução.

Mas primo, beijo é mesmo que nem ferro de passar roupa: liga em cima esquenta embaixo; mas isso também vai da CABEÇA (vivenda de nosso amigo Tesão): se você pensa mais tempo com a de baixo vai acabar lembrando com mais frequência que não serve apenas para mijar, coisa e tal.

e, me desculpa primusco, esse negócio de pastorear gente pra mim é meio coisa de doido - eu mesmo prefiro ovelhas (vinde a mim!). Cada um deve é dar conta de si (a não ser no caso das pobres ovelhinhas que são tapadas de nascença).

Se for pra ficar apitando impedimento, me torno árbitro de futebol,que não me diria respeito o fazem os jogadores fora de campo.

Abraço, primo! (e o sr. tá ficando mais engraçado mesmo mas, por Deus! não que nem o Mainard,que acho é meio doido e não engraçado).

Aline Ramos disse...

Olá, Rob! A Paz!
Bom, acho mesmo que vou precisar ler o texto novamente, mas gostei bastante da exposição de suas idéias! Apesar de que acho que preciso ler um pouco mais sobre o que você pensa sobre o assunto pra fechar o raciocinio e entender totalmente.

Pelo que pude entender com o texto, você discorda da "corte" como um conjunto de regras e uma determinação religiosa que todos devem seguir porque parece ser correta, certo? E, então, você também discorda das justificativas de retorno a um modelo medieval daqueles que tentam defender a obrigatoriedade das regras. Apesar de entender que a forma como as pessoas vivem sua sexualidade (falando de quem se diz cristão) está bastante fora dos padrões de Deus, que deveriam ser determinados pela ação do Espirito Santo (quem nem sempre tem liberdade de agir - veja só, tanta "liberdade" em "outras áreas" e tão pouca nessa e em muitas outras!). É mais ou menos isso?

Bom, se for isso, então concordamos! Eu concordo com a corte, quer dizer, com o padrão de relacionamento que é proposto na corte, não porque foi um padrão definido religiosamente por quem quer que seja, ou porque são regras que devo seguir, mas porque é o que o proprio Espirito Santo tem testificado ao meu espirito. Porque entendo que não devo me amoldar aos padrões deste mundo, mas buscar um padrão mais e mais elevado, até alcançar o Padrão do proprio Jesus. Não acredito em regras - viver uma fé baseada em regras é o que os fariseus faziam, pelo que foram condenados por Jesus - isso é legalismo! E legalismo só traz morte! Não acredito em buscar qualquer tipo de justificação atraves de regras. No entanto, acredito que, para quem realmente se deixa guiar e convencer pelo proprio Espirito Santo (em conhecimento da Palavra e da Verdade de Deus) (e não por homens), as regras podem ser de grande ajuda.

Por exemplo, a maioria dos cristãos vive na filosofia "estou na graça, não preciso mais das Leis (da Primeira Aliança)". Isso pra mim é ignorância, falta de conhecimento da Palavra. As Leis não são más por si mesmas, elas são más quando os homens as praticam achando que, por este simples fato, são justificados ou mais "santos". Entendo que foi por isso que uma Nova Aliança precisou ser feita - para que os homens entendessem que o que salva é a FÉ e não a observancia de leis. Porém, as Leis não foram abolidas, elas continuaram sendo importantes, mas agora, para o homem restaurado pela Fé, após receber e seguir a orientação do Espírito Santo, o cumprimento da lei se torna uma forma de cultuar a Deus. (Bom, mas falamos mais disso uma outra hora).

Voltando à corte, acho que isso se aplica também. Pra mim, não importa se chamam isso de corte, de namoro cristãos ou de qualquer outra coisa, isso não faz diferença! O que importa é, em primeiro lugar, a liberdade do Espirito Santo lhe direcionar e determinar seu padrão de conduta, e, depois, sua disposição em seguir isso. Pronto. Se o Espírito Santo lhe diz que um "beijo de lingua" na sua namorada não tem problema, então quem é o homem pra dizer o contrario? Afinal, no fim, é com o Senhor que você vai prestar contas, e não com os homens!

Eu, pessoalmente, como ja comentei antes, gosto de conhecer as regras (como gosto de conhecer as Leis de Deus), para que, em cima delas, possa discutir prós e contras (o que estamos nos propondo a fazer agora) e possamos descobrir áreas de nossas almas (mente e coração) que ainda não foram restauradas e que estão nos impedindo de andar no espírito. Eu procuro sempre ir descobrindo mais dessas áreas, já que elas que acabam limitando muito do nosso crescer em Cristo. Assim, acho interessantíssimo discutir as regras - e não segui-las cegamente! (É como igrejas que pregam o vegetarianismo baseadas nas leis alimentares de Levitico 11. Opa! Vamos conversar! hehe.. Mas falamos disso outra hora tbm!).

Bem, estou praticamente escrevendo um post no seu post né? hehe.. Desculpe! Espero ter me feito entender. E, sem duvida, espero continuar esse debate em breve!

Shalom Adonai! :)