quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Rochedos para náufragos

A cada vez que me encontro agarrando um rochedo; abrigo natural em tempestades no mar, penso em muitas coisas, talvez nem todas relacionadas diretamente com o ocorrido imediatamente antes quando caí do navio (ou helicóptero, vai depender de quanto dinheiro tenho disponível). Aquela briga com o capitão. Com o cozinheiro. Servente duma figa que não limpou o piso! Piloto incompetente que me deixou nessa situação! E a lista de pensamentos nada lisonjeiros prossegue. Entretanto também se pode pensar em várias outras situações que não teriam ligação direta com o episódio, mas que, em decorrência, aumentam em importância e urgência. A carta que não enviei. O e-mail de corrente chatíssimo que não respondi — mesmo sendo de um amigo de infância —, o abraço que não retribuí de maneira apropriada, o “eu te amo” que nunca disse…

Talvez devêssemos viver como em iminência de morte certa e terrível. Talvez assim valorizássemos mais a vida e as coisas debaixo do sol que trazem alegria e conforto para os cansados de espírito. Ou então isso só aumentaria o hedonismo de nossos tempos. Bem, apesar dessa possibilidade alarmar os moralistas, ao menos teríamos mais “liberdade” e maior “certeza” — quero dizer que o dualismo Bem-Mal ficaria nítido o suficiente para toda essa ortodoxia do “pode-não-pode” ser legítima.

Viver entre seres humanos é complicado. A legião de psicólogos está aí como evidência disso. Viver entre seres humanos em constante negação da sua humanidade (e da dos outros ao seu redor) é pior ainda. E sabe o que é pior ainda? É ser cônscio dessa situação e mesmo assim cair nela, uma e outra vez.

O “evangelho gospel” dominante na nação brasileira fez, e continua fazendo, mais estragos do que comumente se pensa. Não foram somente as doutrinas históricas que foram perturbadas ou as formas de liturgia clássica abolidas. Mentes e espíritos também foram enfeitiçados pela macumba gospel de nossos dias. Como? Desrespeitando as individualidades e forçando todos em um esquema homogeneizante apropriadamente concebido por meia-dúzia de mentes detentoras de capital simbólico — ou “unção”.

Ignora-se que o Corpo de Cristo é corpo e por isso especializado.

É por isso que dou graças a Deus por ter rochedos à minha disposição. Sejam amigos, conhecidos, blogs, sites ou revistas quaisquer. Sempre há um rochedo para o náufrago de espírito aqui. Graças ao Senhor dos Mares.

Nele, o Alto Refúgio

Robson Lima

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Relacionamentos interpessoais: sonho humano & Divino

É verdade que nunca quis conquistar o mundo. Especialmente quando esses sonhos megalômanos, não tão obviamente formulados, ocultos em frases como "conquistaremos esta terra", tomaram conta dos arraiais, quero dizer, igrejas evangelicas belenenses.

Não sou contra sonhos grandes. O próprio Cristianismo é, de certa forma, um sonho. Pense comigo isso: somos tão além-do-mundo (ou assim deveríamos ser...) que tudo o que cremos, reformulando, pois como é necessário fazer esta constante reforma; o fundamental das nossas crenças está baseado no sonho, no não-racional, na .

O que é o sonho? O que pode ser essa manifestação do inconsciente, espreitando-nos durante todo o dia, alimentando-se dele, aguardando pacientemente até o momento do sono para então dar o ar de sua (des)graça? Uma emanação do inconsciente. Seja! O meu inconsciente, o seu inconsciente são produtores desse sonho, do pesadelo, do devaneio, da "visagem"...

Sonhos são humanos. É esta uma das lições Divinas das revelações por sonhos das Escrituras: é no seu momento de maior fragilidade e humanidade que o Eterno encontra espaço pra ser Eterno.

Porém este "sonho humano" não é o que se vê em muitos "arraiais" (ops, igrejas... 'bendito' evangeliquês!). Sonhamos com ruas, cidades, Estados e o mundo aos pés de Cristo. Claro que devemos pregar. A Grande Comissão existe até para o predestinacionista mais ferrenho. O perigo deste deslumbre gospel é esquecer o próximo, o amigo, o parente que se apresenta para nós todos os dias. Então nos apossamos apressadamente dessa verdade e viramos legalistas do espírito humano, do relacionamento interpessoal.

A verdade é que pra muitos relacionar-se com pessoas fora de sua fé somente interessa enquanto possibilidade de "conversão" destas.

Ignoramos que Deus nos fez seres humanos "dotados de valências", de capacidade de simbolizar, de capacidade semiotica... não importa que área das Humanas faça-se referência. Temos transformado nossos relacionamentos em pura "negociata gospel": só somos "amigos" (quero dizer, companheiros) dos que pretendemos converter. Só se enxerga nos "mundanos" futuros convertidos e só então eles terão valor como seres humanos.

Logicamente, formulada tão cruamente essa afirmação será veementemente negada pelo leitor (evangélico) porém pense se a prática cristã deste ser destacado realmente está longe desse "tipo ideal". Diga-me tu leitor(a)! Quem é o "evangélico" que é verdadeiramente companheiro, alegrando-se na alegria e chorando na tristeza, deste "outros" incrédulos - tadinho, nem sabe que Deus não é evangélico. Peninha - que diz amar como Jesus? Jesus pregou Suas Boas Novas, e devemos fazer o mesmo. Porém não creio que o Mestre do Amor seria tão mercantilista com Sua Mensagem, a ponto de transmiti-la somente para quem quisesse ou como Lhe aprouvesse.

Ver o "outro" como próximo pode até ser jargão humanista.
E "conquistar essa geração" também.

Uma coisa é certa dessa pequena reflexão: A conquista se faz aos poucos, a cada dia. E não no passo largo e robusto das campanhas neopentecostais. É a proximidade vencendo a distância. É Cristo refletindo no indivíduo frente a Deus. Estes sim, os que (buscam) amam o próximo como a si mesmo, são os Elias atuais.

Em Cristo
R.Lima

Excurso de pessoalidade

É verdade que nunca quis conquistar o mundo. Especialmente quando esses sonhos megalômanos, não tão obviamente formulados, ocultos em frases como "conquistaremos esta terra", tomaram conta das igrejas evangélicas belenenses.

Não sou contra sonhos grandes. O próprio Cristianismo é, de certa forma, um sonho. Pense comigo isso: somos tão além-do-mundo (ou assim deveríamos ser...) que tudo o que cremos é sonho, reformulando, pois como é necessário fazer esta constante reforma e retificação; o fundamental das nossas crenças está baseado no sonho, no não-racional, na .

Todos que têm certa afinidade com a doutrina cristã sabem disso, que Deus está "além de nós", nisto os católicos o sentem mais que os protestantes, ao menos alguns deles (isso vale pros dois lados) deduzo. O próprio "Deus é fiel", "Deus é grande" e outros bordões repetidos em tom de graça, devoção ou pura troça conotam essa qualidade transcendente Dele, como que dizendo, seja para o (nosso) bem ou mal, "ei Você que tá aí em cima, me ouve seu...".

Talvez o problema esteja no exagero. "Não sejas demasiadamente santo,nem demasiadamente sábio, porque te destruirias a ti mesmo?" (Ec 7:16), parte rejeitada de um livro esquecido. Quem sabe por que não convém a estes sonhadores enfastiados com seu banquete do espírito, quem sabe por que os tempos atuais desprezem a frugalidade ou ainda por outro fator que me escapa agora.

Ultimamente, contudo, tenho sentido uma compulsão para voltar a sonhar. Calma, nada de chavões gospéis nem esse discurso reducionista que equipara o projeto humano ao Divino - quer prova maior do que "Deus satisfará os desejos do teu coração", citando Sl 37:4-6, esquecendo-se (que conveniente!) de que é o desejo do justo que Ele satisfaz. E nada de "somos justificados por Cristo" aqui. Justiça é santidade pessoal, ética e moral cristãs aqui, não outra coisa. Sou forçado a esses excursos...

O sonho é a manifestação do inconsciente, do arquétipo primário, escolha sua escola psicológica. Mas é algo humano, um desejo de ter qualquer-coisa-que-não-seja-esta, poder entrar num prédio onde (teoricamente) todos são irmãos e sentir-se verdadeiramente assim, não apenas massa, fundo de uma figura patética que só sabe "clamar por mais" sem saber que "mais" é este, e pra quê fazer isso. Algo que não me faça sentir culpado por saber demais, por favor? Existirá outra fé que não esta, diferente não em objeto de culto, mas em prática e cosmovisão? Existirá fé como esta, que reconhece que Deus está em todos os lugares e que nós somos a esplêndida realidade?

Alguém me responde essa? Recorra à subjetividade, ao movimento da igreja emergente, à própria pós-modernidade, à tradição dos pais, a qualquer coisa, mas fale algo! Fale algo.